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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Um apartamento vago - Contos - Com Prazer VI


Noite de sexta-feira, em Porto Alegre. O movimento anda agitado com as possibilidades do final de semana. Continuo sentado no meu canto do bar, a cerveja quente no copo e o cinzeiro transbordando. Poderia ser um boteco em qualquer lugar, mas ficava no mesmo prédio do cursinho pré-vestibular. Sempre entediado com as aulas e toda aquela energia dos professores do cursinho. Seres tão divertidos nos convencendo que aquilo tudo faz algum sentido. Preciso de muitas coisas e tudo que me oferecem, são mais coisas para passar o tempo. O grande significado da vida, achar coisas para passar o tempo.
O garçom já me conhecia a mais ou menos uns seis meses, toda noite era a minha primeira parada naquele prédio comercial. Mas mesmo assim ainda não sabíamos os nomes. Nunca dei muita importância para nomes, as pessoas vão passando e eu vou passando. Nada de importante, nada permanente.
Duas garotas lindas entraram pela porta, vestidas com roupas de uma noite de sexta-feira, e maquiagem de sexta-feira. Iam de mesa em mesa e por todo o balcão, carregando pequenos panfletos coloridos. Paravam por um segundo abordando as pessoas e distribuindo seus panfletos e sorrisos. A minha mesa era a ultima, uma mesa invisível. Mas as garotas me acharam e ficaram plantadas na minha frente com belos sorrisos e olhares sedutores. Fiquei imaginando quanto custaria à brincadeira.
- olá tudo bem! A loira disse.
- Quer ir numa festa? A ruiva perguntou.
Continuei bebendo minha cerveja quente e olhando para elas, o jogo é simples, pegue umas garotas lindas e sedutoras, do tipo comunicativo, largue uns panfletos e mande-as circularem pelos bares perto dos cursinhos ou do campus, sempre funciona. Elas vão te convencer que aquela noite você esta com sorte e que elas querem ficar com você. Mas não se iluda é apenas parte do marketing. O mais provável que pode acontecer é você ir numa festa e encontrar uma legião de caras sozinhos, que como você também acreditou que tiraram o bilhete premiado. Mas os conselhos nunca adiantam e você sempre quer se iludir. Fiz o melhor que podia.
- Tudo ótimo, onde é a festa? Eu disse.
- É aqui perto, no centro mesmo. A loira disse e alcançou o panfleto.
Peguei o panfleto e olhei de forma minuciosa, o lado que estava impresso e o lado que estava branco.
- Legal! Respondi.
- Você tem que ir vai estar muito bom hoje, é festa da arquitetura. A ruiva disse.
Poderia até ser legal, numa noite de inverno, com chuva e tudo mais. As possibilidades não pareciam ser tão legais. Mas elas eram muito legais. E poderiam ter mais. Voltamos ao problema do marketing. Eu sabia que era apenas uma ilusão. Que se dane eu vou. – pensei.
- Que horas começa? Perguntei.
- as onze! Elas responderam juntas e animadas, começamos a rir.
Da mesma forma que entraram no bar, saíram, sempre esbanjando alegria e um mundo de possibilidades. Mas elas já estavam na faculdade e eu ainda nem conseguia assistir as aulas no cursinho. Aquelas eram garotas de faculdade e festa. Garotas pra filhinhos de papai e não para um desajustado como eu. Fiquei olhando o espelho na parede do outro lado, e o que eu via. Um sujeito cabeludo, com um cabelo bagunçado, a barba por fazer, usando um jeans sujo e desbotado, uma camisa preta de mangas compridas, que parecia que tinha sido apenas jogada por cima a uns quatro ou cinco dias atrás, magro e com a pele num tom de branco amarelado.  Quanto tempo já faz, que não pego um pouco de sol? Pensei.
O garçom se aproximou e limpou a mesa, trocou o cinzeiro e perguntou: - Mais uma cerveja chefe?
- Quanto devo? Eu disse.
Fechei a conta e sai para aula, ainda dava tempo de assistir a metade da aula. Caminhei até o elevador e fiquei esperando. Olhando para o panfleto e pensando que realmente poderia ser um bilhete premiado. Quem sabe pelo menos aquela seria uma noite de sorte. As portas do elevador se abriram e as pessoas saíram como animais que fogem de um matadouro, apressadas, passando por cima de tudo. Percebi que era a minha turma. Perguntei para alguém que estava no final daquela avalanche o que tinha acontecido. A aula tinha terminado o professor tinha que ir num velório. E liberou o pessoal. Afastei-me e voltei para o bar.
Troquei a cerveja por algumas doses de uísque, precisava ficar sóbrio, pelo menos até encontrar o endereço. Terminei o primeiro maço de cigarros, comprei outro e sai para encontrar o meu premio.
A noite não estava grande coisa, chovia e fazia muito frio. Andava congelando, meus pés ensopados das poças d’água. Encontrei o local, um velho casarão com aspecto de abandonado. Olhei duas vezes para o numero. Deveria ser ali, muitas pessoas jovens entrando e saindo. Comecei a escutar a musica que vinha de dentro. Passei a porta da entrada e um pequeno grupo estava dançando, no que parecia ter sido uma sala, outros grupos encostados nas paredes, no bar, sentados na escada que levava ao segundo andar. Era uma daquelas festas alternativas que acontecem cada dia num lugar diferente, tinha algo de lúdico. Atravessei a sala até o bar improvisado e comprei uma cerveja. Dei uma olhada na volta e percebi que tinha alguns metros de parede onde ninguém se escorava. Caminhei na direção, tinha uma cadeira encostada na parede. Sentei-me no chão de pernas cruzadas, como um índio de algum filme americano. Joguei fora o copo plástico e comecei a beber direto no gargalo da garrafa.
Uma garota parou na minha frente e ficou me olhando, retribui o olhar.
- Esta cadeira esta ocupada? Ela perguntou, apontando com a mão na direção da cadeira.
- O que você disse? Perguntei.
- A cadeira! Esta ocupada!
- A cadeira, não. Ela só esta ai.
Ela riu e se sentou na cadeira, bebendo a sua cerveja e olhando o movimento. Continuei olhando também. Percebi no meio da pista a loira e a ruiva dançando com uns sujeitos bem vestidos e alimentados, do tipo que freqüentam academias e clubes, aquele tipo que sempre esta em alta.
- Esta legal a festa, você não acha? Ela disse.
- Sim. Eu disse.
- Você faz arquitetura?
- Não.
- Eu estou no primeiro semestre.
- legal.
Continuei bebendo, enquanto ela parecia pensar nas próximas frases. Eu queria apenas beber, escutar musica e ficar na minha. À noite esta sendo perfeitamente previsível. Nenhuma novidade. Continuava bebendo e a musica esta boa.
- Eu moro com uma amiga, estamos rachando um apartamento aqui perto. Ela disse.
- Legal. Eu disse.
- Minha amiga foi viajar este final de semana, e eu fiquei sozinha.
- Legal.
- Vou pegar mais uma cerveja, você quer? Ela disse.
- Você pode me trazer mais uma. Eu disse, e tirei uma nota de cinco e alcancei pra ela.
Adeus minha nota de cinco. Pensei, enquanto ela ia se distanciando em direção ao bar. Realmente uma linda garota e gentil. Nunca mais ela ia voltar, o lugar estava ficando cheio. Sentei na cadeira para guardar seu lugar. Ela indo e levando junto minhas esperanças. Distrai-me olhando o pessoal dançando.
Ela voltou com duas garrafas, sorrindo e se mexendo quase como se estivesse dançando, dava pra ver que estava muito feliz. Peguei minha cerveja e levantei de seu lugar, voltando a sentar no chão.
- Obrigada!
- Eu é que tenho que te agradecer. Por você enfrentar esta multidão.
- Demorei um pouco, tinha muita gente no balcão.
- Nem percebi.
- O que você vai fazer depois daqui?
- Vou pra casa.
- O meu apartamento é aqui perto.
- Eu moro na azenha. O que esta achando do curso?
- Legal! Minha amiga só volta no domingo.
- Vai passar o final de semana sozinha.
- Sim.
Ela ficava me olhando com aqueles grandes olhos cor de mel, seu cabelo liso e preto, emoldurando seu rosto de traços finos e delicados, apenas seus lábios eram carnudos, e bem desenhados, tinha os lábios úmidos e muito provocativos, combinando com seus olhos que me convidavam.
- Você é de Porto Alegre? Ela perguntou.
- Não, sou do interior e você? Eu disse.
- Eu também sou.
Ficamos um longo tempo conversando, sobre o interior, a capital, festas, universidade. Um assunto puxando o outro. Uma cerveja atrás da outra, e ela sempre gentil indo buscar, mais e mais. Até que fiquei sem dinheiro e ela continuo trazendo. Fomos ficando cada vez mais altos e alegres. Dançando naquele canto da festa. Ela parou por um estante e ficou apenas me olhando, sorriu e passou os braços pelo meu pescoço, quase encostando sua boca em minha orelha.
- você quer conhecer o meu apartamento. Ela disse e se afastou, continuando a me olhar e sorrindo.
Eu não podia acreditar, tinha encontrado um bilhete premiado.  Sorri de volta, e ela me puxou para fora da festa pela mão. Fomos caminhando até o outro lado da rua. Um bonito prédio moderno. Entramos passando pelo porteiro. Que estava dormindo e pegamos o elevador.

10h00min da manhã caminhando pela Osvaldo aranha, uma manhã quente e ensolarada, procurei meus óculos escuros no bolso da camisa. Alguns fleches do que tinha acontecido vinha a minha mente ainda embriagada. Atravessei a redenção em direção a azenha. Uma bela manhã. No meio das árvores, algumas poças de água. O cheiro da terra e das plantas molhadas. Onde eu tinha deixado os meus cadernos? Qual era o nome dela? Que calor perfeito era aquele?

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