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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Um grande problema



Mas alguém se fudeu.
E esta é a historia. Feita sobre encomenda para tornar a sua própria existência algo interessante. Não acredito muito em finais felizes, a felicidade parece ser um grande tédio. É quando você esta mais confortável, que percebe a grande merda onde se meteu. Ele ia pensando a cada degrau que subia.
- Olá?
Era a voz de Isabel.
Ele não respondeu. Continuou subindo, devagar, se arrastando, apoiado no corrimão da escada.
- Quem está ai?
- Isabel, sou eu.
Parou por um minuto para tomar fôlego. Ela continuava dentro do apartamento. Sentada na cadeira de balanço. Olhando pela janela a luz do final da tarde. Ele estava realmente um trapo, tinha levado uma bela surra. Segurou um dos seus dentes com dois dedos, e o dente ia para frente e para trás, seus lábios inchados.
- A porta esta aberta – ela gritou -, entre!
Tossiu um pouco, respirou fundo. – um momento. Respondeu.
Ele respirou fundo, e foi até a porta. Empurrando-a.
- Olá!
Ela saltou da cadeira e foi ao seu encontro.
- O que foi isto meu amor. Ela disse, passando a mão em seu rosto ensangüentado.
Ficaram os dois se olhando na entrada do apartamento, com a porta escancarada para trás. Nenhum deles realmente sabia o que estava acontecendo.
Mas eles não sabiam. Porque eu ainda estou inventando a historia. Você entende? É assim que as coisas funcionam, aos poucos vai se materializando a idéia. Por enquanto ainda não tenho nenhuma idéia. Mas eles estão na entrada se olhando. Jorge falava com seu eu interior.
Ela olha a própria mão ensangüentada, enquanto ele força um pouco mais o dente, e o arranca. Mostrando o dente branco sujo de sangue para ela e os dois começam a rir. Uma risada grosseira e nervosa.
- Você tem bons ouvidos. Ele disse.
- Porque você acha isso amor. Ela disse.
- Escutou-me subindo as escadas, não fiz quase nenhum barulho.
- Ah, é que vi quando você atravessou a rua.
- E porque não foi ao meu encontro – Ele disse -, você viu que eu tava todo arrebentado.
- Achei que estava bem.
- A minha cara é de quem esta bem?
Isabel ficou olhando para ele de cima a baixo, analisando toda a cena. Ele não parecia estar tão mal, ela pensou.
- Você só precisa descansar um pouco – Ela disse e puxou ele até o sofá -, tem que descansar.
- Uma estatua na praça tem mais sentimentos do que você. Ele disse e se jogou no sofá.
- Quer um café?
- Preciso de algo para relaxar, me trás uma cerveja.
A garota correu até a cozinha e voltou com uma garrafa aberta de cerveja, ele encostou o gargalo da garrafa nos lábios e tomou um bom gole.
- Puta que pariu! Ele gritou, e cuspiu no chão a cerveja.
- O que foi amorzinho?
- Esta cerveja ta quente, me trás outra.
- Não tem mais amor – ela disse -, você esqueceu que tomou todas ontem.
- Que merda, podia ter comprado mais?
- Mas você não me deixou dinheiro.
- Tudo desculpa, eu vou embora.
Tentou se levantar do sofá, mas o corpo tinha esfriado e as dores aumentavam, parecia que estava chumbado, concretado naquele sofá. Desistiu e ficou olhando a cadeira de balanço.
- Que merda é essa? Ele disse apontando com a mão para a cadeira.
- É uma cadeira de balanço. Isabel disse.
- Eu sei que é uma cadeira de balanço, mas o que ela esta fazendo aqui.
- Ah, eu comprei da vizinha, hoje de manhã.
- Mas você não disse que estava sem dinheiro?
- É que a vizinha vendei por um bom preço.
- Mas você não esta sem dinheiro.
- Tinha uns trocados, ela é linda né?
Isabel se sentou na cadeira e ficou olhando para Jorge, e ele continuava olhando para a cadeira enquanto ela se embalava. A vida estava uma merda, tudo que ele tinha eram uma garrafa de cerveja choca e uma cadeira de balanço de segunda mão.  Toda aquela miséria o incomodava e o fato da garota estar ali se embalando o incomodava mais ainda. Os dois estavam desempregados, na verdade nunca tinham trabalhado. Um dia decidiram morar juntos, juntaram o que tinham, alugaram um apartamento pequeno direto com o proprietário. E ali estavam depois de três meses. Um grande erro – Jorge pensou.
Jorge olhou bem no fundo dos olhos de Isabel e disse: - Porque você não faz um strip-tease.
- Fazer o que? Ela perguntou.
- Tira a roupa, pra eu ver.
- Eu não quero tirar a roupa pra você ver.
- Porque não?
- Não estou com vontade.
- Preciso me masturbar – ele disse -, você poderia ser legal comigo.
- É sempre a mesma historia.
- Você acha?
Ela parou de embalar a cadeira, e os dois ficaram em silencio se olhando. Dava pra ver em seus olhos o fogo, e não era de paixão. Estavam acabados, e ele sabia que a diversão tinha chegado ao fim.
Enquanto eu penso no final da historia, você pode ir ao banheiro, dar uma mijada ou se preferir ir à cozinha preparar um chá ou café, sinta-se em casa. Ele ia dizendo para seu eu.
Forçou mais um dente pra frente e pra trás.
Se você foi ao banheiro espero que tenha lavado as mãos! Na verdade não importa o livro é seu agora. E você deve ter gastado algum dinheiro, esta em seu direito.
E o dente começou a balançar, pra frente e pra trás, como o balanço da cadeira. Isabel continuava imóvel, apenas observando. O dente soltou de sua boca, e ele ficou admirando, o dente e seus dedos sujos de sangue.
- Você sabe que as coisas não são bem assim. Jorge argumentou.
- Do que esta falando? Ela perguntou e voltou a se embalar.
- O fato de querer ver você nua.
- Muda o disco – ela disse -, você só pensa nisso.
- Preciso de você.
- Você quer dizer do meu corpo.
- também...
Na rua a noite já tinha chegado, e agora apenas as luzes dos postes, casas e carros, iluminavam. As nuvens encobriam as estrelas e a lua. Tudo parecia artificial e urbano. A sala tinha ficado na penumbra e seus olhos foram se adaptando com a pouca luminosidade, nem perceberam.
- Vou voltar para casa. Ela disse.
- Mas que merda é essa. Ele disse.
- Não tá certo a gente morar aqui – Isabel falou -, desse jeito.
- Que jeito?
- Vou embora!
- Puta merda! Jorge gritou
Ele tinha acabado de arrancar mais um dente, já era o terceiro dente, em apenas um dia.
- Puta merda! Ele gritou de novo.
No canto da boca corria um filete de sangue misturado com saliva, a falta daqueles dentes o fazia não conseguir segurar a saliva. Isabel se levantou da cadeira de balanço e foi até o interruptor da luz e acendeu.
- Vai ser melhor – ela disse –, você vai ver.
- Melhor pra que? Ele perguntou
- Não me faça sentir mal.
- Tudo bem, vai logo então.

Ela foi até o quarto em silencio e pegou sua mala, que já estava pronta. Enquanto Jorge continuava sentado no sofá observando. Isabel saiu pela porta do apartamento e desceu as escadas. Jorge voltou a mexer em outro dente, para frente e para trás, ia ser o quarto dente. Aquilo dava uma sensação de prazer, pra frente e pra trás, até arrancar e depois ficava admirando.  - Mas alguém sempre se fode. – ele disse para o seu eu interior. 


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