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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Na minha época (in memoriam)

Na minha época (in memoriam)
Teve uma sensação de luto atrasado. Se isto é possível, ele não sabia. Mas era o mais verdadeiro sentimento que ele sentiu.  Trinta dias antes conversava com outro amigo, contando velhas historias. As historias até que eram velhas, mas ele não sentia. O tempo sempre correndo e ele com dez mil relógios afiados. Prontos para provarem que o tempo não passava. Apenas jogava para frente. Os reencontros, as lembranças, a possibilidade da imortalidade. No presente não tinha tempo para beber um copo d’água. Tinha que correr a encher vários copos de todos os licores, vinhos, gasolina, areia, caldo de feijão...  Sem tempo para um simples copo d’água, não fazia sentido desperdiçar o momento. E o dia terminava com um gosto de passado. – amanhã. – ele dizia. E enxergava a possibilidade do futuro, onde tudo podia realizar, naquela estrada interminável. Sempre usando o presente para contar o passado, apostando no futuro. – Na minha época. – ele dizia sempre quando queria contar algo novo. Em seus planos um dia ia rever os velhos amigos. Um dia! Sempre se tem tempo para isso – ele pensava.
Neste dia em especial. Hoje. Ele esta folheando para passar o tempo uma lista com o nome de todos os amigos de sua época. Conhecia muitos artistas, pintores, escritores, pesquisadores, fotógrafos... Alguns já tinham passado para outro plano, já tinham ido embora. Quanta gente morta ele conhecia, e aquilo foi começando a fazer um sentido estranho.
Ele pensa a respeito do tempo, enquanto vai descendo seu dedo pela lista. Olhou distraído o nome do amigo. Aquele amigo que há trinta dias, exatos trinta dias. Tinha falado a respeito. Falou de maneira solta, sem muita importância, já que em breve ele poderia rever.
Um detalhe naquela lista chamou sua atenção, ao lado do nome tinha duas datas. A princípio sua mente não aceitou o significado daquilo. Há trinta dias ele tinha mencionado o nome do amigo. Mas aquela segunda data, lhe foi como um soco no estomago. Já tinha passado quatro anos. Ficou por um instante sem saber onde, em que época e o que tinha acontecido. Notou que a cada ano. Os nomes naquela lista vão ganhando uma nova data. Na minha época – ele pensou -, não era assim.


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