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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Não pode funcionar







Não pode funcionar

Tem coisas que não funcionam mesmo. Quando penso nisso uma luz se acende, mas é apenas a luz do quarto ao lado. O vazio que sinto por dentro é mil vezes maior do que o mundo que os meus olhos um dia vão conseguir enxergar. Posso sair agora deste quarto e passar o resto da vida andando e nunca vai ser o suficiente, nunca vai ser menor do que este sentimento.  E, é um sentimento horrível e necessário. Com o passar do tempo percebo que andei tentando abrir um embrulho, um pacote, um presente. E quanto mais rasgo o papel, retiro as fitas, minha ansiedade vai crescendo a respeito do que poderia estar guardado dentro daquela caixa tão bem embrulhada, com papel tão lindo. Algo muito importante deve ser, e com este pensamento continuo desembrulhando. O trabalho de uma vida inteira, para saber o que esta ali guardada e protegida por todas as minhas crenças e ignorância.  Na bíblia tem uma passagem que fala em selos, pelo menos acredito que tenha, não cheguei tão fundo em minhas crenças apesar das historias serem boas. Mas pode ser apenas uma memória inventada em alguma manhã em que estava curando a ressaca e pensando em coisas importantes, como quem vai pagar o aluguel ou se vou ter dinheiro para mais uma carteira de cigarros.
Estava falando de um fantasma, noutra noite, de como as coisas tinham acontecido. Lá estava eu na biblioteca procurando um livro sobre meditação ou talvez algum assunto mais calmo como um manual para construir uma bomba. Construir uma bomba deve ser algo relaxante. Um monte de fios e outros componentes misturados; com alguma substancia explosiva. Tem que se ter muita paciência para não se mandar tudo pelos ares. Mas na biblioteca não tinha nada a respeito de nenhum dos assuntos. Tive que procurar algo no bar do outro lado da rua.  O garçom estava entediado com a falta de movimento.  Quando entrei pela porta ele esboçou um sorriso amigável. Caminhei até o balcão e me sentei em um banco.
- Boa tarde. Ele disse.
Fiz um sinal com a mão, como quem diz que esta tudo legal.
- Uma cerveja, amigo.
A tarde correu sossegada, uma cerveja e depois outra, até a noite chegar. Nem um movimento no bar parecia que a cidade tinha parado. Estaria acontecendo algo de importante em algum lugar.
A respeito da conversa sobre o fantasma, não me lembro o que conversei, mas com certeza não tinha nada a ver com a tarde bebendo no bar. Nem o tédio que agora estou sentindo. Voltemos a historia, quem sabe acontece alguma coisa.
Uma barata, - isso! Ela correu pelo piso e subiu a parede. Uma enorme barata.  Deixa-me ver a cor. – marrom! A velha barata marrom correndo pelo piso em direção da parede, sem pensar ela começou a escalar a parede. Não sei ao certo se ela pensa ou não pensa. Mas agora ela subiu sem pensar. E até ai nada de estranho, mas quando ela chegou ao teto, seguiu andando pelo teto de cabeça para baixo, sem pensar. Acredito que ela não estivesse pensando. Bom, baratas andam de cabeça para baixo quando estão andando pelo teto. De repente ela caiu de barriga para cima e ficou mexendo suas patinhas tentando se desvirar e seguir correndo pelo piso. Eu fiquei pensando, é chegada à hora de esmagá-la ou a deixo seguir seu caminho. Resolvi continuar lendo um livro com uma historia muito absurda.  Sem conseguir tirar todo o papel e abrir a caixa. Nunca um texto foi tão profundamente raso e cheio de significados. Fantasmas, bibliotecas, bares, baratas, caixas, e por fim tédio.

Se você chegou até aqui, é porque quer saber o que tem na caixa. A curiosidade matou o gato. Não precisa falar nada, eu sei. Copiei esta frase, apesar de nunca ter visto um gato morrer de curiosidade. O que tem na caixa? Nada, e, é por isto que não pode funcionar. Não existe nada na caixa, e quando se abre ela, percebesse que tudo não passou de um engodo. Uma mentira para passar o tempo. Vivemos uma mentira para passar o tempo, se for tirando as fitas, rasgando o papel, durante anos e anos no final você vai descobrir uma caixa vazia. A grandiosidade e a beleza estavam apenas na embalagem.  E a barata continua de barriga pra cima, se ela conseguir se desvirar é provável que corra no piso, suba na parede, ande pelo teto de cabeça pra baixo e caia de novo de barriga pra cima, e vai ficar se debatendo até conseguir começar tudo de novo.  É uma bonita embalagem. 

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