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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Sexto capítulo - novela - negociante de almas - Röhrig C. - lançamento 2015 - livro


06
As pessoas ficaram aglomeradas na frente da capela, ninguém tinha entrado na capela. Todos conversavam ao mesmo tempo, o som das conversas misturadas, parecia um zumbido de um enxame de abelhas confusas.
- É espantoso – eu disse.
- O quê? – ele perguntou.
- Ninguém esta entrando na capela.
Um sujeito saiu da frente da capela e veio em nossa direção, meio que cambaleando e com uma expressão nauseada.
- Ei, você! Gritei para o sujeito.
Ele parou ao nosso lado, ainda tapando o nariz com uma das mãos.
- O que esta acontecendo? Perguntei.
- Não da para entrar na capela, o cheiro é insuportável. Respondeu e continuou andando até conseguir se apoiar no primeiro carro e vomitar.
Caminhei abrindo caminho em direção à capela, andando no meio da multidão que parecia estar em um estado de choque. O horror e a expressão de repulsa em seus rostos. Enquanto seguia em frente, foi como se o som de suas vozes ia desaparecendo, tudo que eu via eram apenas rostos distorcidos, sem nenhum som.  Os que estavam na porta se equilibrando contra a pressão que os de trás impunham. Apenas me prepararam para o que viria a seguir. Entrei na capela e meus pulmões se encheram daquele fedor nauseante e familiar. O caixão ainda permanecia lacrado. Nem a viúva conseguiu se aproximar. E o silencio era absurdamente constrangedor. Dei meia volta e sai.
Encontrei os pedreiros e expliquei a situação. Eles providenciaram um carrinho que parecia mais ser uma maca enferrujada, para colocarmos o caixão em cima. Conseguiram também algumas mascaras. Uma das mulheres do cortejo conseguiu um vidro de perfume. Encharcamos as mascaras com perfume. Gesticulei para todos irem à frente e ficarem esperando na frente do mausoléu da família. Os dois homens colocaram as mascaras, apenas os olhos aparecendo, imóveis. Esperando o meu comando. Fiquei olhando a minha mascara e pensando sobre o absurdo de toda a situação. O cheiro do perfume era exageradamente forte. Tínhamos que fazer aquilo mesmo?
Entramos, colocamos a maca ao lado do caixão. O perfume tinha impregnado minhas narinas, me sufocando. Retirei a mascara e para minha surpresa. O único cheiro era do perfume. Não tinha nenhum outro cheiro na capela. Os pedreiros também tiraram as mascaras.
- Pensei que o cheiro fosse insuportável? Um deles falou.
- Eu sei, mas não sei o que aconteceu.
- Vocês são muito exagerados – ele continuou -, o coitado nem esta fedendo.
O outro completou – vamos de uma vez. Tenho mais o que fazer.
Colocamos o caixão na maca, e seguimos pelo corredor. 

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